
E se a conversa fosse sobre “gentificar” Campos Elíseos?
Há pelo menos uns dois meses, eu me deparei com a notícia sobre o projeto de “revitalização” do bairro Campos Elíseos – um termo que escrevo entre aspas propositalmente, pois… já não havia vida por lá?
Utilizando as palavras da gestão atual, a ideia seria revitalizar essa região de São Paulo através da transferência de alguns órgãos estaduais para o bairro, incluindo a sede do governo estadual. Busca-se, portanto, estabelecer uma espécie de polo administrativo. Para aqueles que, assim como eu, são alheios à cartografia de São Paulo, esclareço que nós estamos falando aqui de um bairro situado na região central da capital paulista, há apenas poucas quadras do centro tradicional.
Considerando a configuração urbana mais comum nas metrópoles brasileiras, isso significa dizer que nós estamos falando de uma região que há muito experimenta um verdadeiro processo de declínio do ponto de vista habitacional, muito embora concentre uma parcela significativa dos postos de trabalho. Trata-se, assim, de uma região cuja real vivacidade se limita ao período diurno – algo que, de fato, foge do modelo de cidade defendido por qualquer urbanista.
Dito isso.. qual seria, então, o motivo da relutância das comunidades locais? Bom.. para conquistar a condição de exequível, o projeto prevê não só a desativação do atual Museu da Favela, que passará a ser então o gabinete do governador, como a desapropriação de cinco quadras no entorno desse equipamento. Nas entrelinhas, nos estamos lindando com a remoção de aproximadamente 800 moradores, segundo o levantamento do Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade (LabCidade), vinculado à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP).
Trata-se, portanto, de um projeto de altíssimo custo social, que encontra o seu sustento na promoção de uma onda de deslocamentos forçados e que nega, nesse sentido, o direito à cidade de quem hoje habita a região. Isso porque dificilmente os moradores mais vulneráveis do bairro, especialmente aqueles que vivem em pensões, cortiços e outras formas de habitação, que são comuns a contextos de ocupação informal, encontrarão como alternativas de moradia domicílios tão bem localizados, isto é, próximos das oportunidades urbanas.
“Revitalizar”, nesse cenário, me parece portanto um eufemismo para gentrificação, dando continuidade aos projetos higienistas que, vez por outra, as cidades brasileiras experimentam.
Quem dera estivéssemos falando aqui de “genteficação”, um processo que pretenderia beneficiar os antigos e novos moradores, sem discriminação social.

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